Entre o desamparo e o cuidado: um ensaio clínico – estético

por Tarsila Curtü Miranda

Há obras que não nos “ensinam” nada — elas nos colocam em posição. Não entregam respostas; reorganizam a pergunta. O Filho de Mil Homens opera assim: não disputa o que é família; faz sentir o que acontece quando um corpo humano se vê sem amparo suficiente — e, ao mesmo tempo, quando um gesto de cuidado surge onde não havia promessa de pertencimento.

Este ensaio parte de uma hipótese simples, mas exigente: o desamparo não é um acidente da vida psíquica; é sua condição de base. E, por isso, o cuidado não pode ser tratado como adereço moral, mas como função de sustentação: um modo de manter o humano em existência quando ele ameaça cair para dentro de si — despencando num poço de silêncio.

Chamo de clínico-estético o modo de leitura que não usa o filme como ilustração de conceitos, nem como caso clínico disfarçado, mas como campo de experiência. Um campo onde vemos o cuidado se construir não como ideal (o cuidado perfeito), e sim como trabalho: por vezes precário, por vezes silencioso, quase sempre atravessado por vergonha, medo, falha — e justamente por isso capaz de verdade.

A clínica conhece essa cena: quando o sujeito chega não pedindo explicações, mas pedindo, sem saber pedir, um lugar. Um lugar onde sua dependência não seja humilhação; onde sua falta não seja prova de indignidade. O cuidado começa quando alguém suporta ficar perto do que não se resolve rápido: a solidão que não se cura por argumento, a ferida que não se fecha por conselho, a vida que não se “conserta” por boa vontade.

Se existe um fio que atravessa esta obra, é o de que ninguém é filho de um só. A filiação, aqui, deixa de ser genealogia e passa a ser destinação: aquilo que nos acontece quando alguém nos inclui — não porque tem obrigação, mas porque sustenta um compromisso com a vida do outro. Nesse sentido, o filme faz uma pergunta clínica em forma de imagem: que tipo de cuidado é possível quando a origem falha, quando a norma exclui, quando o amor não tem molde pronto?

O que se acompanha não é a formação de uma família ideal, mas a invenção de uma rede de amparo. E talvez seja isso que mais nos convoca: a passagem do desamparo como sentença para o desamparo como ponto de partida — onde o cuidado não apaga a falta, mas a torna habitável.

A cena em que O Filho de Mil Homens apresenta o acolhimento de Camilo por Crisóstomo não se constrói como decisão épica nem como gesto reparador. Não há discurso fundador, não há promessa de futuro, não há garantia de que aquilo dará certo. O que há é um corpo que não vira as costas para outro corpo à beira de cair.

Camilo chega carregando uma forma específica de desamparo: não o da ausência recente apenas, mas o desamparo que se acumula quando as perdas se sucedem sem tempo de elaboração. Órfão mais de uma vez, ele não pede — e talvez nem saiba mais pedir. O filme não o coloca em posição de apelo explícito; ao contrário, o desamparo aparece como retraimento, como silêncio espesso, como olhar que ameaça cair para dentro de si. Há ali algo muito próximo do que a clínica conhece: sujeitos que não demandam porque já aprenderam que a demanda não encontra endereço.

O gesto de Crisóstomo não vem para “resolver” esse estado. Ele não promete amor, não promete pertencimento, não promete felicidade. Ele oferece presença. Uma presença despojada de saber, quase constrangida, que se limita a sustentar um espaço possível. O cuidado, nessa cena, não se confunde com proteção total nem com reparação das perdas. Ele opera de modo mais elementar: interrompe a queda.

Do ponto de vista clínico, essa interrupção é decisiva. Não se trata de eliminar o desamparo — tarefa impossível —, mas de torná-lo vivível. O cuidado não aparece como antídoto ao desamparo, mas como aquilo que permite que o sujeito não seja engolido por ele. Há uma diferença fundamental entre estar desamparado e estar sozinho no desamparo. O filme trabalha precisamente nesse intervalo.

A casa para a qual Camilo é levado não se apresenta como lar ideal. Ela não organiza, não cura, não simboliza imediatamente. Funciona antes como função de borda: um contorno mínimo que impede a dispersão total. Assim como na clínica, onde o enquadre não salva, mas sustenta; não promete, mas permanece. O cuidado aqui não é excesso, é medida justa — e, muitas vezes, silenciosa.

Há algo de profundamente ético nessa cena porque ela não romantiza o acolhimento. O risco permanece. A precariedade permanece. O futuro permanece em suspenso. E é justamente isso que a aproxima do gesto clínico: cuidar sem garantias, sustentar sem saber, permanecer sem ideal. O cuidado não nasce da certeza de que se pode, mas da decisão — muitas vezes muda — de não abandonar.

Nesse sentido, o filme desloca uma concepção muito difundida de cuidado como competência, técnica ou virtude moral. O que se vê é outra coisa: o cuidado como posição diante da vulnerabilidade do outro, posição que exige renúncia à onipotência e aceitação da própria insuficiência. Não é apesar de não saber o que fazer que Crisóstomo cuida; é justamente porque não sabe que seu gesto não se impõe, não invade, não captura.

A cena do acolhimento de Camilo nos lembra que o cuidado verdadeiro não elimina o desamparo — ele o reconhece. E, ao reconhecê-lo, cria a possibilidade de que o sujeito permaneça no mundo sem precisar se fechar sobre si mesmo. Entre a queda e a salvação, o filme escolhe algo mais discreto e mais radical: a sustentação.

O cuidado que se constrói em O Filho de Mil Homens não se organiza em torno de feitos extraordinários. Ele não se apresenta como vocação, missão ou virtude exemplar. Ao contrário, aparece como um gesto pequeno, muitas vezes quase invisível, que não transforma a vida de imediato nem produz efeitos espetaculares. É justamente aí que reside sua força clínica.

Há uma expectativa cultural insistente de que cuidar seja sinônimo de fazer muito, saber muito, oferecer respostas, garantir destinos. O filme desmonta essa expectativa ao mostrar que o cuidado, quando efetivo, opera por contenção, não por expansão; por presença sustentada, não por intervenção excessiva. Crisóstomo não invade a vida de Camilo com projetos, palavras ou orientações. Ele não tenta preencher o vazio deixado pelas perdas. Ele não ocupa o lugar do outro — e isso é decisivo.

Esse modo de cuidar aproxima-se de uma ética clínica que reconhece que há sofrimentos que não se resolvem por explicação e feridas que não cicatrizam por boa intenção. O gesto mínimo não é pobre; ele é preciso. É aquele que oferece o suficiente para que o outro permaneça, sem submetê-lo à dívida de gratidão, à exigência de melhora ou à promessa de redenção. O cuidado, assim entendido, não captura o sujeito; deixa espaço.

Na clínica, reconhecemos esse gesto quando o analista não se apressa em interpretar, não se antecipa à elaboração, não responde à angústia com certezas. Permanecer disponível, sustentar o tempo, tolerar o silêncio — tudo isso exige uma renúncia profunda à posição de quem sabe. O cuidado não heroico é aquele que suporta não resolver, não aparecer como salvador. É um cuidado que aceita sua própria insuficiência.

O filme mostra que esse tipo de cuidado não se oferece sem custo. Há constrangimento, hesitação, medo de falhar. Crisóstomo não se apresenta seguro; ele também é atravessado por sua própria solidão e por seus limites. O cuidado, aqui, não nasce da plenitude, mas da falta compartilhada. E é justamente essa falta — reconhecida, não negada — que impede que o laço se torne violento ou intrusivo.

Ao recusar o heroísmo, o filme também recusa a lógica do sacrifício absoluto. O cuidado não exige a anulação total de quem cuida, nem se constrói sobre a ideia de entrega sem resto. Ele se dá dentro de uma medida possível, falha, humana. Há uma sabedoria clínica nessa recusa: cuidar não é desaparecer; é sustentar uma relação em que ambos permaneçam existindo.

Esse ponto é crucial para pensar o cuidado fora de ideais normativos. O gesto mínimo não funda uma família perfeita, nem garante pertencimento estável. Ele apenas inaugura uma possibilidade: a de que alguém não esteja sozinho diante do que o excede. E, muitas vezes, isso é tudo o que se pode — e tudo o que é necessário.

Assim, o filme nos convida a repensar o cuidado não como promessa de completude, mas como ética da sustentação. Uma ética que não se apoia no brilho do gesto grandioso, mas na persistência silenciosa de quem permanece. Entre o abandono e a salvação, escolhe-se o meio: o cuidado como gesto mínimo que impede a queda definitiva.

Em O Filho de Mil Homens, a família não surge como estrutura prévia à qual os sujeitos se acomodam. Ela se constrói depois, a partir de encontros marcados por faltas, desencaixes e impossibilidades. Não há, ali, um modelo a ser reproduzido; há uma invenção, feita a partir daquilo que não se encaixa nos moldes normativos de filiação, conjugalidade ou pertencimento.

Os personagens que compõem essa rede não se encontram porque completam uns aos outros, mas porque compartilham falhas. São figuras atravessadas por exclusões anteriores, por histórias em que o amor não encontrou lugar garantido. A família que se forma não apaga essas marcas; ao contrário, se organiza em torno delas. O laço não vem para corrigir o passado, mas para criar uma forma possível de habitar o presente.

Do ponto de vista clínico, essa configuração é particularmente fecunda. Ela desloca a ideia de que o laço familiar se sustenta na origem, na norma ou na biologia, e nos aproxima de uma concepção de família como função de amparo. Função que não depende da perfeição dos lugares, mas da possibilidade de circulação entre eles. Não se trata de ocupar corretamente as posições de pai, mãe ou filho, mas de sustentar uma rede onde alguém possa cair sem desaparecer.

A falha, aqui, não é obstáculo à constituição do laço; é sua condição. Não há família sem falha, mas algumas conseguem fazer dela um ponto de ligação, enquanto outras a transformam em motivo de exclusão. O filme aposta na primeira possibilidade. A ausência de garantias — de normalidade, de legitimidade social, de futuro estável — obriga os personagens a inventarem modos singulares de estar juntos, sem apoio em discursos prontos.

Essa invenção exige um tipo específico de cuidado: um cuidado que não se ancora na certeza de papéis definidos, mas na disponibilidade para sustentar o outro naquilo que ele não consegue ainda sustentar sozinho. A família, assim, não aparece como espaço de fusão ou completude, mas como campo de diferenciação possível. Cada um permanece incompleto — e é justamente isso que impede que o laço se torne sufocante.

Na clínica, vemos algo semelhante quando sujeitos que não tiveram uma experiência de amparo suficiente tentam, mais tarde, construir laços a partir do que lhes faltou. Há sempre o risco de repetir a falha como abandono ou violência. O que o filme mostra é outra via: a possibilidade de transformar a falha em borda, em limite que organiza, em ponto de apoio provisório. Não se trata de negar a precariedade, mas de fazer algo com ela.

Ao apresentar uma família que nasce da falha, o filme também nos convoca a uma ética clínica que recusa ideais de normalização. Nem todo laço precisa se parecer com um modelo consagrado para ser legítimo. O que sustenta uma família — assim como o que sustenta um processo analítico — não é a adequação a um ideal, mas a capacidade de manter aberta a circulação do cuidado, mesmo quando os lugares são instáveis.

A família que se inventa em O Filho de Mil Homens não é um refúgio contra o mundo, mas uma rede mínima de amparo dentro dele. Ela não protege do desamparo — reconhece-o — e, ao reconhecê-lo, cria condições para que o sujeito não precise se defender fechando-se sobre si mesmo. É dessa falha assumida que o laço emerge, não como solução, mas como possibilidade viva.

O que O Filho de Mil Homens apresenta como gesto entre personagens retorna, na clínica, como posição ética. Não como técnica, não como método, não como promessa de transformação, mas como decisão silenciosa de não abandonar o lugar quando o sujeito chega sem palavras, sem projeto e, muitas vezes, sem esperança.

Há pacientes que não entram em análise formulando demandas claras. Chegam como Camilo: retraídos, desconfiados do laço, marcados por perdas que não puderam ser simbolizadas a tempo. São sujeitos que aprenderam que pedir não adianta — e que, por isso, se defendem pelo silêncio, pela desistência ou por uma adaptação excessiva. Diante deles, a clínica é convocada a algo muito próximo do que o filme mostra: sustentar presença antes de produzir sentido.

Esse é um ponto delicado, porque desafia uma expectativa contemporânea de eficácia terapêutica. Espera-se que o analista compreenda rápido, interprete cedo, ofereça direção. No entanto, há sofrimentos que não suportam esse tipo de antecipação. Nesses casos, interpretar cedo demais pode funcionar como invasão; oferecer sentido antes do tempo pode repetir a experiência de não ter sido escutado. O cuidado clínico, então, se aproxima do gesto mínimo: esperar com, permanecer próximo do que ainda não se organiza.

Sustentar sem garantias implica renunciar a uma posição confortável. O analista não sabe se o laço vai se consolidar, se o processo vai avançar, se algo vai se transformar. Ainda assim, permanece. Essa permanência não é passividade; é trabalho psíquico intenso, feito de atenção, de tolerância à frustração e de aceitação dos próprios limites. Cuidar, aqui, não é conduzir o outro a um destino, mas oferecer um espaço onde ele possa, pouco a pouco, não cair.

Há uma afinidade profunda entre essa posição clínica e o modo como o filme concebe o cuidado. Em ambos, o que se recusa é a lógica da salvação. Não se trata de resgatar o sujeito de sua história, nem de reparar o que foi perdido. Trata-se de criar condições para que ele permaneça em relação, sem ser capturado por ideais de normalidade, autonomia ou superação rápida. A clínica, como o filme, aposta no tempo — um tempo que não é cronológico, mas ético.

Essa aposta exige suportar o desamparo do próprio analista. Há momentos em que não saber o que fazer produz angústia, dúvida, sensação de impotência. A tentação de recorrer a explicações prontas, diagnósticos fechados ou intervenções excessivas aparece justamente aí. O eixo clínico do cuidado mínimo convida a outra coisa: reconhecer que não saber faz parte do trabalho, e que sustentar essa posição é, em si, uma forma de cuidado.

Quando o analista aceita não ocupar o lugar de quem sabe tudo, abre-se a possibilidade de um laço menos violento. Um laço em que o sujeito não precise corresponder a expectativas terapêuticas para ser acolhido. Assim como no filme, o cuidado não vem acompanhado de exigência de melhora, gratidão ou mudança imediata. Ele se oferece como continência, como borda que permite que algo do sujeito se organize sem pressa.

Nesse sentido, a clínica se revela como um dos lugares possíveis onde o cuidado retorna fora dos ideais. Um lugar onde a dependência não é tratada como falha moral, mas como condição humana; onde o desamparo não é corrigido, mas reconhecido; e onde o laço se sustenta não pela promessa de completude, mas pela decisão ética de não se retirar.

Talvez o que O Filho de Mil Homens nos ensine não seja como cuidar, mas onde o cuidado acontece. Não no ideal, não na completude, não na promessa de um futuro reparado — mas no intervalo frágil entre permanecer e não cair. Ali onde nada está garantido e, ainda assim, alguém decide ficar.

O desamparo não se apresenta como algo a ser superado, mas como aquilo que nos constitui. O cuidado, por sua vez, não se oferece como solução, mas como resposta possível à vulnerabilidade — resposta que não elimina a falta, mas a torna habitável. Entre um e outro, forma-se um espaço ético onde o humano pode continuar existindo sem precisar se fechar, endurecer ou desaparecer.

O filme não conclui. A clínica tampouco. Ambos recusam finais redentores porque sabem que a vida não se organiza assim. O que se oferece é outra coisa: uma continuidade mínima, sustentada por gestos discretos, por presenças que não se impõem, por laços que não exigem perfeição para existir. O cuidado que permanece não é o que resolve, mas o que acompanha.

Talvez seja isso que nos convoque, enquanto clínicos, leitores e habitantes do mundo: reconhecer que não somos salvos uns pelos outros, mas mantidos. Mantidos em relação, mantidos na linguagem, mantidos no tempo. Ser filho de muitos não é ter garantias — é ter, aqui e ali, alguém que não se afasta quando a queda ameaça.

Entre o desamparo e o cuidado, não há síntese. Há travessia.
E, às vezes, isso basta.

REFERÊNCIAS

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FOUCAULT, Michel.  A hermenêutica do sujeito. São Paulo: Martins Fontes.

FREUD, Sigmund.  Inibição, sintoma e angústia (1926). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago.

GREEN, André.  O trabalho do negativo. Porto Alegre: Artmed.

LISPECTOR, Clarice. A Paixão segundo G.H. Rio de Janeiro: Rocco.

MÃE, Valter Hugo.  O Filho de Mil Homens. São Paulo: Cosac Naify.

O Filho de Mil Homens (2025).  Direção: Daniel Rezende. Brasil.

WINNICOTT, Donald W.  A preocupação materna primária (1956). In: Da pediatria à psicanálise. Rio de Janeiro: Imago.

WINNICOTT, Donald W.  O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed.


COMO CITAR ESTE ARTIGO | MIRANDA, Tarsila Curtü (2025). Entre o desamparo e o cuidado: um ensaio clínico-estético. Revista NeuroVivere, edição inaugural, 2025. Disponível em: <https://revistaneurovivere.com.br/entre-o-desamparo-e-o-cuidado-um-ensaio-clinico-estetico/>.