por Tarsila Curtü Miranda
Há sofrimentos que não se organizam em torno de uma perda reconhecível. Nada parece ter sido arrancado, nada foi claramente perdido. Ainda assim, algo falta. Não como ausência de objeto, mas como ausência de começo. O que dói, nesses casos, não é o que se perdeu, mas o que não chegou a acontecer.
A clínica encontra esses sujeitos não pelo excesso de lembrança, mas pela rarefação da experiência. Pessoas que falam de uma vida em suspenso, como se estivessem sempre à espera de um momento inaugural que nunca chega. Não há cena traumática a ser narrada, nem conflito evidente a ser interpretado. Há uma sensação persistente de atraso, de deslocamento, de não ter entrado plenamente no próprio tempo.
O não vivido não retorna como lembrança deformada. Ele se apresenta como silêncio espesso, como dificuldade de dizer “isso aconteceu comigo”. Muitos pacientes dizem “não sei” — não como defesa, mas como constatação. Não sabem porque não houve ocasião de saber. Algo foi sentido, talvez, mas não encontrou sustentação suficiente para se tornar experiência. Faltou testemunha, faltou continuidade, faltou tempo que permanecesse.
Na clínica, esse tempo suspenso aparece menos como estagnação e mais como impossibilidade de inauguração. A vida não avança porque nunca começou de fato. Projetos são adiados, vínculos permanecem provisórios, escolhas parecem sempre prematuras. Tudo acontece como rascunho. O presente não se apoia em memória suficiente, e o futuro não se anuncia como destino possível.
Há sessões em que nada parece acontecer. O discurso não se adensa, os afetos não se diferenciam, o tempo passa sem marcas evidentes. Para um olhar apressado, trata-se de resistência, de falta de implicação, de ausência de desejo. Mas a clínica do não vivido exige outro tipo de escuta: aquela que reconhece que, antes de elaborar, algo precisa simplesmente acontecer pela primeira vez.
Nesses casos, a interpretação precoce não ilumina — invade. Nomear cedo demais pode repetir a experiência de não ter sido acompanhado no tempo certo. O analista é convocado a sustentar algo mais elementar do que o sentido: a possibilidade de duração. Permanecer. Voltar. Não se retirar quando nada acontece. O trabalho não está no conteúdo, mas na criação de um campo onde a experiência possa, enfim, ganhar espessura.
O tempo, aqui, não é linha contínua. Ele se apresenta como interrupção. Um tempo que não flui porque não encontrou ritmo. A clínica não “faz o tempo andar”; ela oferece condições para que o tempo se constitua. A regularidade das sessões, a previsibilidade do encontro, a permanência do analista operam como borda: não salvam, mas sustentam. Não prometem início, mas deixam o início possível.
Há pequenos sinais quando algo começa a se deslocar. Um afeto nomeado sem pressa. Um compromisso mínimo que se sustenta um pouco mais. Uma decisão que não se desfaz imediatamente. Nada espetacular. O começo, na clínica do não vivido, é quase imperceptível. Só se reconhece depois, quando o tempo deixa de estar inteiramente suspenso.
Essa clínica exige do analista uma renúncia particular: a de não ocupar o lugar de quem sabe o que falta ao outro. O não vivido não se resolve por completude, nem se repara como perda. Há lacunas que permanecem. O trabalho não transforma o que não foi vivido em vivido pleno, mas altera a relação do sujeito com essa falha. O vazio deixa de ser abismo e pode tornar-se intervalo.
Sustentar esse intervalo é um gesto ético. Não apressar, não capturar, não exigir que a vida comece segundo um ideal de normalidade ou produtividade psíquica. O cuidado, aqui, não é intervenção excessiva, mas permanência suficiente. Um tempo que retorna. Um outro que não se afasta.
Talvez a tarefa mais delicada da clínica do não vivido seja esta: abrir tempo onde o tempo falhou. Não para reparar o passado, mas para permitir que o presente não seja interditado. Quando não houve tempo suficiente para viver, o excesso de urgência repete a falha. Quando não houve testemunha, a interpretação precoce silencia novamente.
O tempo que se abre na clínica é um tempo habitável. Um tempo que comporta hesitação, repetição, silêncio. Um tempo que não cobra rendimento, mas sustenta presença. É nesse tipo de tempo que a vida pode, pouco a pouco, começar a acontecer — não como promessa futura, mas como possibilidade no agora.
O não vivido não é destino. É condição. Condição que pode se deslocar quando há um outro que permanece, que não apressa, que não abandona. A clínica não devolve ao sujeito o que lhe faltou, mas lhe oferece algo talvez ainda mais fundamental: a chance de ter tempo.
Abrir tempo onde não houve tempo é um trabalho discreto, repetido, silencioso. Um trabalho que não se anuncia como solução, mas que, ao se sustentar, permite que a vida — enfim — possa começar a acontecer, ainda que de modo imperfeito, ainda que tarde, ainda que aos poucos.
REFERÊNCIAS
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COMO CITAR ESTE ARTIGO | MIRANDA, Tarsila Curtü (2025). O não vivido: clínica dos tempos suspensos. Revista NeuroVivere, edição inaugural, 2025. Disponível em: <https://revistaneurovivere.com.br/o-nao-vivido-clinica-dos-tempos-suspensos/>.