A sala vazia — uma cena clínica

por Tarsila Curtü Miranda

Ao final do dia, quando a última porta se fecha, a sala silencia. Mas nem tudo se cala.

As cadeiras permanecem no lugar. O relógio continua andando. A luz muda devagar.

Persistem vozes que não desaparecem imediatamente. Não como palavras nítidas, nem como lembranças pessoais, mas como restos de ritmo, de afeto, de pausa. Algo do que foi dito — e do que não pôde ser dito — ainda circula no ar.

Não se trata de carregar histórias. Trata-se de ter sido atravessado por presenças.

O analista ainda escuta por um instante. Não porque precise compreender, mas porque algo precisa terminar de pousar.

Há um tempo próprio desse depois. Não é o tempo da sessão, nem o tempo do trabalho. É um tempo de decantação, em que a clínica continua operando sem palavras.

O cuidado também acontece aí. Não no fazer, não no interpretar, mas no gesto de não se defender do que ficou.

Nem tudo precisa ser resolvido ao final do dia. Algumas coisas apenas precisam de tempo para permanecer.

Quando a sala enfim se aquieta, algo se organiza — não como conclusão, mas como continuidade. A clínica não termina quando o encontro acaba. Ela termina quando o tempo encontra um lugar onde repousar.

No dia seguinte, a sala estará novamente pronta. Mas não vazia. Habitada pelo que passou e pelo que ainda poderá acontecer.


COMO CITAR ESTE ARTIGO | MIRANDA, Tarsila Curtü (2025). A sala habitada: uma cena clínica. Revista NeuroVivere, edição inaugural, 2025. Disponível em: <https://revistaneurovivere.com.br/a-sala-vazia-cena-clinica/>.