por Tarsila Curtü Miranda
Há silêncios que não escondem nada.
Eles não protegem um segredo, nem operam como recusa. Apenas ainda não encontraram palavra. Quando isso acontece, o tempo precisa ficar. Ficar sem apressar, sem traduzir, sem exigir forma. O silêncio, nesses casos, não é obstáculo ao trabalho clínico — é o próprio lugar onde ele começa.
Nem toda ausência de palavras é defesa. Às vezes, é falta de testemunha. Falta de alguém que permaneça o suficiente para que a experiência possa, enfim, se organizar como vivida. Há coisas que não se calam por repressão, mas porque nunca tiveram onde pousar.
Quando o sujeito diz “não sei”, nem sempre está recusando saber. Pode estar dizendo que algo ainda não aconteceu. E o que não aconteceu não se lembra — precisa, antes, começar. A clínica conhece bem esse ponto delicado em que interpretar cedo demais equivale a falar por alguém que ainda não teve chance de falar.
Há falas muito bem organizadas que não tocam nada. Narrativas coerentes, explicações refinadas, histórias que fecham sentido — e, ainda assim, deixam o analista diante de um vazio intacto. Em contrapartida, há silêncios que sustentam uma vida inteira, não porque sejam densos em si, mas porque permitem que algo venha a se constituir sem ser capturado.
O excesso de explicação, por vezes, é o modo mais eficiente de não dizer. Explicar pode funcionar como preenchimento apressado de um espaço que precisaria permanecer aberto. O silêncio, ao contrário do que se supõe, nem sempre empobrece a experiência; às vezes, é o que a protege de uma forma prematura.
Nem tudo o que não foi dito foi reprimido. Algumas coisas simplesmente não tiveram onde pousar. Faltou tempo, faltou borda, faltou alguém que ficasse. A clínica começa quando essa falta de lugar encontra um outro que não se retira.
Há pacientes que falam longamente e não se sentem acompanhados. Outros chegam exaustos de falar sem resposta. Entre um modo e outro, o trabalho analítico não é fazer falar, mas sustentar uma presença onde a palavra, se vier, não precise se justificar.
O silêncio pode ser um pedido.
Mas não um pedido de resposta.
Um pedido de tempo, de presença, de não abandono.
Quando a palavra falta, o tempo precisa ficar. Nem toda angústia pede interpretação. Algumas pedem que alguém não vá embora. Sustentar esse ponto exige do analista uma renúncia difícil: a de não se apressar em fazer sentido.
O que não se diz não é vazio. É matéria ainda sem forma, aguardando condições para existir. Há histórias que não chegam como narrativa, mas como clima. O analista escuta também com o corpo: o ritmo, a pausa, o peso do que não vem.
O silêncio não é ausência de trabalho.
É, muitas vezes, o lugar onde ele começa.
Quando algo finalmente se diz, quase nunca é o que se esperava. E isso talvez seja o sinal mais claro de que não foi arrancado, nem antecipado — mas autorizado.
REFERÊNCIAS
FREUD, Sigmund. O inconsciente (1915). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago.
GREEN, André. O trabalho do negativo. Porto Alegre: Artmed.
WINNICOTT, Donald W. Comunicação e falta de comunicação levando ao estudo de certos opostos (1963). In: O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed.
COMO CITAR ESTE ARTIGO | MIRANDA, Tarsila Curtü (2025). O que não se diz: pensamentos clínicos. Revista NeuroVivere, edição inaugural, 2025. Disponível em: <https://revistaneurovivere.com.br/o-que-nao-se-diz-pensamentos-clinicos/>.