por Tarsila Curtü Miranda
No cotidiano, a espera costuma ser tratada como falha de funcionamento: o atraso do outro, a fila que não anda, a resposta que não vem. Esperar aparece como perda de tempo, algo a ser eliminado pela eficiência. A vida contemporânea se organiza para reduzir a espera — aplicativos, notificações, prazos — como se o tempo só tivesse valor quando produz algo.
Mas há um outro tipo de espera, menos visível, que não se resolve com velocidade.
Esperar não é apenas não agir. É habitar um intervalo.
Na clínica, a espera se impõe. Não apenas na sala de espera, mas no corpo do processo. Há tempos em que nada se organiza ainda. Tempos em que o silêncio se alonga. Tempos em que o trabalho consiste, sobretudo, em sustentar o intervalo.
Há sessões em que nada acontece — e, ainda assim, algo se prepara.
Na arte, a espera frequentemente estrutura a experiência. Um plano longo demais, um silêncio que não se justifica, uma cena em que quase nada muda. O espectador é convocado a permanecer, a ajustar o próprio ritmo, a tolerar o vazio. A obra não entrega; ela espera junto.
No cotidiano, porém, essa capacidade se perde facilmente. O intervalo é rapidamente preenchido por telas, sons, tarefas. O tempo aberto incomoda. Como se algo pudesse desabar se nada acontecesse.
A clínica conhece esse medo. Há sujeitos que chegam não porque algo aconteceu demais, mas porque nada pôde acontecer o suficiente. A vida foi atravessada rápido demais, sem tempo de experiência. A espera, então, não aparece como expectativa, mas como suspensão — um tempo que não começa.
O trabalho clínico não elimina a espera. Ele a sustenta. Cria condições para que o intervalo não seja vivido como abandono, mas como possibilidade. Um tempo em que não é preciso produzir sentido imediato. Um tempo em que a presença do outro impede a queda.
Talvez seja isso que aproxima clínica, arte e cotidiano: a possibilidade de recuperar a espera como experiência humana fundamental. Não a espera ansiosa por um resultado, mas a espera que permite que algo venha a existir sem ser forçado.
Esperar, nesse sentido, é um gesto de cuidado.
Cuidado com o tempo.
Cuidado com o outro.
Cuidado com aquilo que ainda não tem forma.
COMO CITAR ESTE ARTIGO | MIRANDA, Tarsila Curtü (2025). Sobre esperar: um texto-ponte. Revista NeuroVivere, edição inaugural, 2025. Disponível em: <https://revistaneurovivere.com.br/sobre-esperar-texto-ponte/>.